Gravar un disco. Na corda frouxa do horizonte

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Cada vez são mais os que me dizem que gravar um disco já não compensa. E eu fico a pensar. Primeiro deixo que flua o pensamento, e sem saber por que abrolham as palavras de Sílvio: “Compañeros de música, tomando en cuenta esas politonales y audaces canciones quisiera preguntar”. Um absurdo, pois nada têm a ver, ou talvez sim. Têm a ver com o autoquestionamento do artista, o que fazer. É o que nos perguntamos, máxime na pandemia. O disco marcou as nossas vidas durante tantos anos! Se houvesse uma câmara iria-nos levando polo Orçám corunhês até pousar na Rua Cega em Discos Portobello, verdadeiro referente musical na cidade e que se foi com o último alento de Jaime Manso no passado verão. Entrar em Portobello era mergulhar no velho e no novo, encontrar a olhada amiga e sabedora de Jaime e achar acaso o mais difícil e o mais amado. Uma grande perda, e é por isso que este artigo tinha que começar assim, em homenagem.

Quando todo era precário e primitivo, gravar um disco supunha aceder a um estrato ideal: viajar a Madrid e provar sorte, que alguma discográfica se interessasse –uma maqueta prévia à espera do milagre–, ou entrar em contato com Edigsa em Barcelona, o que fizeram os de Voces Ceibes. O disco converteu-se, para além da rádio, na via habitual de difusão musical, e daí as discotecas nas noites urbanas. As primeiras em Ourense foram 3A e Long Play, onde lembro como um flash a luminária verdegada com sabor a pipocas naquele êxito dos Pekenikes. Primeiras imagens psicodélicas, como entrar uma noite em El caballito rojo (boite de Medina del Campo) atrapado polo Caro caro amore de Al Bano. Eram os singles, às vezes gravados com valor promocional sobre um LP de referência, ainda que não fosse raro o lançamento do single como fim e objeto em si mesmo.

O consumo da música hoje é diferente. Todo está planificado para a gente ouvir pequenos fragmentos de música inconclusa nas plataformas digitais –o conceito do zapping–, se bem o retorno do vinil nos achega de novo ao prazer das escuitas demoradas, esse pousar a agulha no suco como era no princípio. Para criadores/as e intérpretes as cousas mudaram sensivelmente, pois por um lado nos últimos trinta anos foi possível gravar em estúdios do país sem necessidade de ir fóra, e por outro as novas tecnologias facilitam a gravação digital em espaços domésticos, ao menos numa primeira fase. Mas temos um problema: os discos não se vendem. O disco deixa de ter valor para muitos, simplesmente porque não o sentem necessário. E daí, a quem lhe vai interessar produzi-lo? Os grupos e solistas nada podem esperar da indústria discográfica, limitando as aspirações económicas a uns concertos que a Covid-19 anula, restringe e minimiza. Alguns, desde a defesa da música ao vivo, seguimos na teima de gravar. Gravar como soporte do videoclip, é certo. Gravar como carta de identidade para apresentar. Mas sobretodo para ficar na memória do tempo, pois um disco, como um diamante, é para sempre.