A presença da música ao vivo

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César Morán: Cantautor, compositor e escritor

Vivemos tempos de playback e karaoke, mas bem me lembro de como nos institutos trabalhávamos alunas/os e profes a fazer música, teatro e pantomima, sem afão de lucro, em horário e fóra de horário, e todo o que se lograva era genuíno e autêntico. Depois chegou a primacia da imagem e a preferência foram as coreografias onde só importava a dança e o movimento ao som de uma música mais ou menos audível que ficava perdida na invisibilidade da borbulha. O mesmo acontecia fóra, por exemplo nos festivais. Veja-se o mítico festival da eurovisão onde já não há orquestra nem músicas ao vivo, mesmo quando recuperou algo de dignidade com a presença de uma bela canção interpretada por Salvador Sobral. Porém, como é sabido, antes não era assim. Havia uma grande orquestra no palco, e quando saía à cena o cantor, cantora ou grupo de cada país era também apresentado o diretor correspondente que, batuta na mão, dava início aos acordes que a orquestra interpretava sem o mais mínimo aparato virtual. Era a época de France Gall, Raphael, Sandie Shaw, Lulu, Vicky Leandros ou ABBA. O formato era comum noutros festivais como o de San Remo, o de Benidorm e também nos que se faziam na Galiza, como o festival do Minho, onde Alfredo Garrido interpretaria em 1968 a canção Mi tierra gallega, original de Ricardo Ceratto e María Josefa López, logo popularizada com grande sucesso polos Tamara na voz de Pucho Boedo e com arranjo de Prudencio Romo.

Há tempo que alguns não concorremos a festivais deste tipo, mas eu lembro ter participado em cidades e vilas ao longo do país. Às vezes a infraestrutura era outra e cada quem empregava os seus meios instrumentais, mas vem-me agora à mente a convocatória de um festival em não sei que ano dos setenta. Levava duas canções originais e precisava alguém que me fizesse os arranjos para orquestra, e seguindo conselhos fora falar com Manuel Muñiz, diretor da orquestra Compostela. A conversa foi na Quintana, onde estava o palco, e ele redirigiu-me a José Ramón Sierra, que além de compositor e arranjador era clarinetista, violinista, saxofonista e mesmo diretor da Banda Municipal da Corunha, máis tarde membro da Orquestra da Corunha e daquela membro também do grupo Os Breogáns, onde também estava o contrabaixista Manuel Iglesias, meu professor no conservatório.

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Sierra vivia na Avenida de Navarra, perto da Torre. Deixei-lhe a partitura básica das canções e talvez algo gravado em cassete, e aos poucos dias já me tinha os arranjos ao módico preço de três mil pesetas. Isso era trabalhar com seriedade. Agora só era chegar a Marim –não dixera ainda onde ia ser o festival–, entregar-lhe ao diretor as partituras e começar o ensaio geral para o evento da tarde-noite. Todo mais manual e menos digital, mais mecánico e menos electrónico, mais verdadeiro e menos falso. A música podia ser melhor ou pior, mas era música ao vivo.

Haverá pouco mais de ano e meio, numa mudança familiar, apareceram as partituras.

(Artigo publicado no número 457 de Sermos Galiza, o semanário de Nós Diario, no sábado 20 de fevereiro de 2021)


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