César Morán: Cantautor, compositor e escritor

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As palavras e expressões mudam de significado em períodos de tempo às vezes muito breves, sem que os mais dos falantes caiam na conta. Hoje, com toda a gama de meios de comunicação, incluídas as redes sociais, estas variações produzem-se muito mais rápido, e avonda que algum traço linguístico da rua, mais ou menos marginal, chegue, por exemplo, ao anúncio publicitário, para que todo o mundo o comece a reproduzir decontado. A respeito de tais mudanças, a minha mente seletiva quer falar agora do verbo “passar”, por pura ocorrência.

Quando o 5 de julho de 1975 fomos às “15 Horas de Pop y Rock Ciudad de Burgos” –o de “pop” era um eufemismo–, entrevistamos quase todos os grupos e solistas que se davam cita naquele evento histórico, ainda no franquismo: Alcatraz, Iceberg, Orquestra Mirasol, Companya Elèctrica Dharma, Hilario Camacho, Gualberto, Eva Rock, Burning, Storm, Triana… Especialmente agradecida foi a conversa com Xavier Batllés, baixista e alma mater da Mirasol, quem a uma certa pergunta respondia: “No sé, dicen por ahí que ya estamos a nivel europeo. ¿Qué coño importa si estamos a nivel europeo o a nivel chino? Estamos al nivel de aquí, somos tíos de aquí y pasamos de todo.” Desde a admiração que sentíamos polo músico catalão, ficou em nós aquele pasamos de todo, pois utilizava-o num sentido até então desconhecido por estas latitudes. Passar de todo era, e segue sendo, ter experiências, atravessar dificuldades, sofrer calamidades, viver os atrancos do caminho –sempre como verbo transitivo–, mas não “passar de ti” (e muito menos o abominável “pasar tuya” que hoje se impõe no castelhano vulgar). Esse “passar” de ti, de mim ou “de la mafia”, frase ou sintagma que alguns linguistas deram em chamar “suplemento”, era algo que nos descolocava. Batllés queria dizer que dava igual, que era algo ante o que mostrávamos indiferença.

Porém, esse novo sentido de “passar” não tardou em generalizar-se até o ponto de ser hoje habitual nos mais dos âmbitos. Mas começou nas esferas do marginal, no mundo paramusical e progressivo que lhe chamavam “rollo”, e não era ainda a posterior “movida” madrilenha-viguesa que acabou de apagar aqueles saudosos 70. Passar era desmarcar-se da norma, passar de todo, talvez passar o “canuto”, passa contigo, desde uma perspectiva ácrata. E tão rápida foi a mudança semântica que lembro uma vez no pub “A 100” da Corunha, onde tocávamos todas as noites, que soou a mítica Tarde em Itapoã na versão gravada em La Fusa. Seria por volta de 77-78 e acaso a primeira vez que a ouvíamos. O leitmotiv “Passa(r) uma tarde em Itapoã” ia-se repetindo ao final numa sorte de cânon entre Toquinho e Vinicius, de jeito que soava “passa”, “passa”, e na gente que tomava algo no “A 100” era uma festa, uma estridência contida e em todo o caso um gozo tranquilo, descontraído e feliz entre as volutas de fume e as cores esvaídas.

No ano 92 viajei ao Brasil, e estando na Baía acheguei-me à praia de Itapoã. Era inevitável.


artigo, publicado o 26 de junho no suplemento dos sábados de Nós Diario:


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