César Morán: “Compopstela, de Alfonso Espiño Louro “

IES CHAMOSO LAMAS

(Publicado em Galicia21, Journal of Contemporary Galician Studies)*

César Morán: Cantautor, compositor e escritor

SPORTUR GALICIA 2022

Temos o gosto de resenhar um interessante livro de Alfonso Espiño Louro, doutor em História da Arte, Licenciado em Filologia Inglesa e com Máster em Gestão Cultural, além de músico. O título completo é Compopstela. Música moderna en Santiago (1954-1978)**, um documento atraente para quem vivesse o ambiente de Santiago naqueles anos, para quem se achegue a esse espaço/tempo desde a óptica actual e para músicos/as ou interessados/as pola vivência musical na Compostela da posguerra e o final da ditadura.

Editado em formato quadrado de 25 x 25 cm. polo Consorcio de Santiago / Universidade de Santiago de Compostela, leva um desenho de Daniel Vilas que ilustra ludicamente a capa e a contracapa. Como o autor declara, o livro é fruto da sua tese de doutoramento, dirigida por Javier Garbayo, e apesar das anedotas e as diversas leituras possíveis, mantém em parte esse aspecto académico na estrutura, no modo de redigir, no formato numérico das epígrafes e nas 1177 notas em rodapé ao longo das 417 páginas de rigoroso e exaustivo trabalho.

A estrutura externa, trás uma cita de Bibiano da Canción pros que nunca morren, enmarca-se nos “Agradecimientos”, o “Índice” e o “Prólogo” de Juan E. Gelabert –no início– e a “Bibliografía” e “Hemerografía” finais, seguidas do “Índice onomástico” e uma página de “Abreviaturas y acrónimos”. Entre esses dous marcos está a matéria do livro que Alfonso Espiño divide em sete blocos ou apartados, incluída uma achega de inumeráveis fotografias, cedidas com as devidas licenças –tal se afirma– por um cento de persoas, entre as quais se encontra Chema Ríos, Tito Segade, Jesús Fandiño, E. Reiriz, Firuco –vários deles músicos protagonistas do relato–, ou os citados como “Archivo Peleteiro”, “Archivo Minerva”, “Biblioteca Xeral”, os jornais “El Correo Gallego”, “La Noche” e outros.

Quereria antes de todo louvar a objetividade e o equilíbrio do autor sobre a matéria narrada, inscrita no contexto das últimas décadas do franquismo e os dous ou três anos seguintes, refletindo por exemplo a necessidade de estar afiliado ao SEU (sindicato de estudantes na ditatura, claramente vertical) quem desenvolvesse atividades musicais na altura, narrando a transcendência do recital de Raimon no Estádio Universitário compostelano em 1967 ou valorizando o nascimento em 1978 do Sindicato Galego da Música para fechar uma etapa da música popular moderna na cidade.

São de agradecer as numerosas anedotas, algumas relativas ao absurdo da censura da época, do qual a gente nova se poderá surprender, e outras sobre as dificuldades para conseguir materiais eletrónicos como guitarras, baixos e amplificadores. Talvez hoje não se imagine, mas as primeiras agrupações de fins de 50 e primeiros 60, ante a impossibilidade de terem guitarras elétricas, usavam uma clássica com “pastilla” electromagnética que adquiriam por correio, ligada a um amplificador caseiro –podia ser um aparelho de rádio–, antes de que alguns luthiers como Jesús Fandiño –muitas vezes citado– começassem a construír os seus próprios amplificadores. As anedotas enriquecem-se ainda quando Espiño relata, por exemplo, como nas “serenatas” na rua se lançava um cabo à janela da casa correspondente para que a guitarra “elétrica” se pudesse ouvir. O que por outro lado nos faz compreender que muitas formações musicais até metade da década de 60 não amplificavam os instrumentos, ou quando menos não os amplificavam todos. E isto não é exclusivo do nosso âmbito, pois avonda ouvir e ver vídeos americanos de jazz e rhythm and blues de metade do século, com pouca ou nula amplificação, guitarras de ampla caixa e a guitarra baixa já pensada para tal fim.

Digamos também que o trabalho utiliza em geral dous tipos de fontes, como aponta Juan E. Gelabert no prólogo: as escritas e as orais. A consulta de hemerotecas, nomeadamente a de El Correo Gallego, vê-se complementada com numerosos informantes que aparecem citados nas primeiras páginas, e igualmente ao longo do texto quando corresponde. Todo conforma, afinal, o quadro de uma Compostela mítica e real que é o espaço onde decorre a música.

Devo reconhecer que, antes da leitura, a ideia que me provocava o título era a dos grupos rock e pop da Compostela dos sessenta e setenta. E assim é, mas só em parte, pois cumpre superar as quase duascentas primeiras páginas de leitura para encontrar o miolo da música anunciada, e não apenas polas introduções históricas e contextuais, mas polo tratamento de formações anteriores, nada influídas ainda polas novidades inglesas e americanas mais renovadoras (nomeadamente o fenómeno Beatles), e que recolhem os ecos da canção latinoamericana por um lado, e por outro as ondas chegadas da música francesa e italiana. De facto, é a partir daí que em Compostela, na Galiza e na Espanha se chegam a conhecer as novidades musicais originadas no mundo de língua inglesa.

Ligado ao anterior está o uso do termo “conjunto” para os mais dos grupos que se citam no livro. Antes dos “conjuntos” já havia as “orquestras”, mas como “conjuntos” são denominados quase todos os que se agrupam neste estudo, desde o Sky surgido em 1953 até “Los Rebeldes”, “The Leaders”, “Los Linces” ou “Los Thanos” a partir de 1964, o que vai variar com a chegada do rock progressivo e o underground, já entre 1968 e 1978, quando as formações preferem o nome “grupo” ao de “conjunto”, e a supressão do artigo diante do nome, caso de “Noso Tempo”, “Question”, “Brétema” ou “N.H.U”.

Mas deixando de parte a palavra “grupo”, onde está a diferença entre “conjuntos” e “orquestras”? Acaso seja este um dos pontos mais difusos, pois há dous elementos a considerar: um é o ambiente universitário em que se formam os conjuntos aqui tratados, e não apenas universitários, considerando que muitos deles se formaram antes nos colégios Minerva (depois chamado Manuel Peleteiro) ou La Salle, colégios de ensino médio. Normalmente o decurso cronológico da vida destes conjuntos acabava ao rematarem as carreiras os seus integrantes, todo o qual leva a pensar no seu carácter não profissional. Eis o argumento utilizado por Alfonso Espiño para distinguir entre “conjuntos” e “orquestras”, sendo estas claramente profissionais, em princípio. O tema, como digo, é complexo, pois algumas orquestras denunciavam os conjuntos por não terem o carné de profissional, outras vezes alguns membros de orquestras emprestavam os seus carnés aos dos conjuntos para poderem actuar, carnés que expedia o sindicato vertical SEU através de fácil exame que não exigia conhecimentos musicais. E ainda, nas muitas entrevistas realizadas, os mais dos componentes falam de “contratos” em numerosas salas e outros lugares da geografia galega e mesmo fóra dela.

Numa rápida olhada ao contido, as referências ao contexto histórico da primeira e segunda guerra mundial e à importância de Santiago de Compostela na história e no franquismo dão passo ao termo rock and roll e as suas origens, a chegada do rock and roll através do cinema, ligado à rebeldia juvenil, o impacto de Elvis Presley, o posterior evoluir do rock e o que chama o seu “declive” com o surgimento do folque (Dylan, Joan Baez), o twist de 1960 e a aparição de The Beatles na Inglaterra. Segue o rock na Europa e o escândalo que provocou na Inglaterra o filme Rock Around the Clock de Fred F. Sears em 1956, a música beat com The Beatles e os ecos na Itália e França, e um detalhe importante: o rock em espanhol na América Latina, particularmente em México com os Teen Tops, de grande influência nos novos conjuntos da Espanha franquista, onde o rock and roll só era conhecido por uns poucos. Recomendo ler os comentários da “prensa nacional” (pp. 31 ss.) sobre o rock and roll em diários como La Voz de Galicia ou La Noche, que resultam hoje enormemente chocantes e divertidos.

Espiño dedica fermosas páginas ao papel da rádio em Compostela (Radio Galicia, com María Teresa Navaza e Santiago da Vila, que fazia gravações de grupos e solistas na emisora, em fitas analógicas), assim como da TV e dos lugares que tinham discos (Radio Díez, em Rosalía de Castro). Também à existência de autênticos pioneiros na amplificação do som como Jesús Fandiño, Pablo Seoane e Alfredo López Vilar, Firuco. Fandiño fundou em 1977, com Ángel Lorenzo, a tenda de som hi-fi Audio Lyfsa, das mais modernas do território espanhol. E diremos que Espiño, na exaustividade do seu trabalho, prolonga a história de cada grupo ou personagem mais alá da época estudada. É o que faz com Pablo Seoane, Firuco, ou os “conjuntos” que imos ainda referir. Igualmente são fundamentais os espaços musicais em Compostela, e trás apontar que após a guerra se proibiram as festas de carnaval pola sua inmoralidade, cita-se uma série de locais, personagens curiosas, orquestras de baile, sociedades ou entidades que tiveram a ver com a música moderna, desde o sindicato vertical ao antedito Sindicato Galego da Música. Entre os locais salientamos o Casino de Caballeros, o Teatro Principal, a boite do Hostal dos Reis Católicos, a Casa da Parra (onde estava o SEU e o Club Universitario), o fogar do “Frente de Juventudes”, os locais da OJE, o Colégio La Salle, o Colégio Minerva, e entre os Colégios Maiores, principalmente o de La Estila.

Quanto aos “conjuntos” propriamente, seria impossível falarmos agora deles, pois o autor contempla mais de cinquenta com maior ou menor extensão. Trás o precedente do Sky (o primeiro em usar a guitarra elétrica em Compostela, em 1953), Espiño inclui entre os “Primeiros conjuntos universitarios modernos” (1957-1964) o “Casbah”, “Los Psiquis”, “Los 5 Tesseo’s”, “Los Tesseo’s/Tesseo’s Quartet”, “Los Gladiadores”, “Johnny y Ricardo”, , “El Trío O’Kay”, “El conjunto Ritmen”, “El dúo Ritmen Rock”, “El conjunto Alaska”, “Los Jakos” y el “Trío Faneca”, “Los Youngs”, “El Trío Los Bardos” e os fundados por alunos do Colégio Minerva: “Los Yago”, o combo “Jazz-6”, “The Taker’s”, “Teddy Rock”***.

Em “El beat en Santiago de Compostela” (1963-1968) figuram “Los Lluquet”, “The Blue Sky”, “The Spiders”, “Los Chelines” e “The Music Stars”, e baixo a epígrafe “La explosión pop santiaguesa” (1964-1969) estão “Los Rebeldes”, “Los Vevés”, “Troyers 68”, “The Leaders”, “Los Nibelungos”, “Los Sueños”, “Los Buitres”, “Los Dandy’s”, “Los Ridoka”, “Los “Junior’s”, “Los Linces” (mais tarde “Linces Pop”), “Los Roter’s”, “Los Dingos”, “Los Dinker’s”, “Los Meteoros”, “Los Thanos” e “Los Potes”.

Finalmente, nas últimas tendências de “Soul” “Rock progressivo” e “Underground” (desde 1967) aparece “Thaker’s Fusion Combo”, “Noso Tempo”, “Novo Tempo”, “Los Trucos”, “”Question” e “N.H.U.”, e agrupações dos 70 como “Los Makis”, “Eros”, “Lume”, “Penumbra”, “Héter”, “Cristal Azul”, “Preludio” e outras.

Anotaria ainda certos dados de importância e alguns nomes próprios:

Espiño deixa claro que a música folque e de cantautores ficam fóra do objeto do trabalho, e é por isso que são nomeados tangencialmente. Isso não impede que Bibiano Morón, líder de Los Thanos ou de Noso Tempo, tivesse um papel de relevo na viragem do rock com temas originais e numa linha galeguizadora antes do seu projeto em solitário.

Também incide em que o LP de N.H.U. em 1978 foi o único publicado por um conjunto musical de rock com base em Santiago, e que Xoán Piñón subiu em 2014 ao canal de youtube do grupo parte do concerto de 1975 no Salón Teatro de Compostela.

Alguns conjuntos reapareceram recentemente, como Los Chelines (2014-2019), The Music Stars (2017) ou Linces Pop (2012-2016), que gravaram o LP Lo que el viento no se llevó com os componentes originais Tony Viña, Emilio Quicler, Chema Ríos e Guillermo Pardavila, mais Alfonso Espiño, o autor deste livro, como baixista.

O leitor vai degustar neste volume toda a essência que nos foi impossível transmitir aqui. E houvo acaso outros grupos nos 70 que nem puderam gravar nem tiveram continuidade. Mas nunca se sabe. Poderiam ressuscitar.

NOTAS:

*Galicia21, revista de cultura galega contemporânea editada desde as universidades de Cork (Irlanda) e Bangor (Gales). Ano 2021: https://www.galicia21journal.org/K/index.php

**ESPIÑO LOURO, Alfonso, Compopstela. Música moderna en Santiago (1954-1978), Consorcio de Santiago/Universidade de Santiago de Compostela, Servicio de Publicacións e Intercambio Científico, 2020, 417 pp. ISBN: 978-84-16753-48-2 (Consorcio). – 978-84-18445-38-5 (Universidade).

***Sinala Espiño que no terceiro curso de bacharelato do curso 1960-61, surgiram no Colégio Minerva sete conjuntos músico-vocais: os Danubio, The Spiders, The Blue Sky, The Leaders, Los Nibelingos, Los Sueños e Los Chelines. Todo está resenhado na revista Vamos.



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