César Morán: “Cigarreiras”

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Um espetáculo integrador

Foram muitos os eventos deste verão na cidade em diferentes espaços, na praça de Maria Pita, na praia de Riazor, nos teatros, em Santa Margarida, e falando de música gostei mais de umas cousas que de outras, no que agora não vou entrar. Por informes de amigas soubem deste espetáculo sem ter uma ideia clara, mas anotei na agenda o 24 de agosto e chegado o dia encaminhei os passos a Maria Pita. O motivo inicial era o teatro, e ao pouco fum sabendo que intervinha a Banda Municipal e o Coro Cántigas da Terra, mas só ao chegar à praça, ateigada de público, comecei a entender de que se tratava: um verdadeiro musical a grande altura, e é por isso que agora falo dele.

Foi o próprio diretor da banda, Juan Miguel Romero Llopis, quem tomou a palavra no início para apresentar uma estreia músico-teatral que actualiza a revolta das cigarreiras da Fábrica de Tabacos o 7 de dezembro de 1857, uma das primeiras luitas sindicais lideradas por mulheres que houvera daquela na Europa. De facto, é ele quem lhe propõe a Luís Bolón, diretor artístico de Cántigas da Terra, recuperar a “estampa”, género lírico-musical que não se representava desde fins dos 90. Bolón acolhe a ideia com entusiasmo, mergulha no cancioneiro de Pérez Ballesteros, encontra uma copla sobre a fábrica da Palhoça e todo vai dar ao maestro Adolfo Anta Seoane, falecido em 1978, que para além de dirigir a coral Cántigas da Terra durante 27 anos, dirigiu também a coral Aturuxo da Fábrica de Tabacos e mais o Coro Sadense. Pois parece que Anta Seoane recolhera diversas melodias tradicionais, acaso cantadas polas cigarreiras no seu dia e agora interpretadas com arranjos de Bolón e o aparato sinfónico da Banda Municipal.

O resultado é uma posta em cena grandiosa que mistura música, teatro, canto e dança –com o grupo de baile Santaia–, levando a “estampa” tradicionalmente costumista a um conceito contemporâneo. A obra, estruturada em três atos, inicia-se com banda instrumental seguida do canto, para depois entrarem as actrizes de branco com protagonismo de Isabel Risco, que encarna a operária Maria Pena Barreiro, líder da revolta em 1857, sempre acompanhada por Áurea González e Victoria Pérez, e no elenco está Manuel Fernández, José Losada, Alberte Bello e integrantes do quadro teatral de Cantigas da Terra. O texto é de Carlos Ares, e cumpre salientar o trabalho de Estefanía Gómez e Iván Villar, de Nova Galega de Danza, responsáveis da direção de movimento.

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OS MELLORES ESTABLECEMENTOS


O público atendeu à música, o som, a cor e a mobilidade cénica, vibrando e aplaudindo nos momentos álgidos ou de clímax dramático, quando da mão de Isabel Risco sobrevém a revolta contra os homens e as trabalhadoras interpretam a “Foliada da Crunha”, e quando através dos diálogos se reivindicam umas dignas condições de trabalho. As dimensões do palco permitem que mais de um cento de artistas o ocupem, e é justo salientar o bom trabalho do som, cousa difícil a priori entre a música instrumental e as vozes cantoras. Um espetáculo emocionante.


(Publicado no número 676 de Sermos Galiza, o semanal de Nós Diario, sábado 20-09-2025)


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