César Morán: “A escola de canto de Nell Leyshon”

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Voltar à casa, mas sem ser a mesma

Costuma-se dizer que a leitura nos fai melhores. A leitura, a atividade literária, a música, a arte, a beleza. Desde há tempo procuro escapar das afirmações categóricas, pois a experiência nos mostra que na história –mesmo no Partenon de Atenas– primam as linhas curvas. Que Nero o imperador fosse amante das artes não impediu em absoluto a sua crueldade, nem que Hitler admirasse a música de Wagner contribuiu para qualquer tipo de humanismo. Ao contrário, utilizou o seu conceito da arte para propagar a ideologia nazista. Eu reconheço que a leitura me enriquece, que a música e o contacto com todas as artes nos ajuda a melhorar o processo da vida, mas já não diria que nos ajude a sermos melhores persoas.

Por outro lado, a arte não é só consequência do trabalho e da disciplina, ainda que estas sejam necessárias. Para além de que a arte é diferente do artifício, existe a beleza “ingénua”, simples, pura. Um rapto, um impulso “genial” que pode comover. Tenho ouvido um músico “contemporâneo” rejeitar a arte “natural” dizendo: “É que então para que estudamos e nos sacrificamos?”.

Vêm-me estas ideias à memória a propósito de A escola de canto (no original The Singing School, 2022), um livro maravilhoso de Nell Leyshon cuja leitura recomendo sem duvidar. Como nem o quero resenhar nem quero fazer “spoiler”, é por isso que verto estas palavras de maneira indireta, elusiva e alusiva, cuidando de não pisar onde não devo. Já lhe lera A cor do leite (The Colour of Milk, 2012), mas foi gente próxima a mim quem dixo que eu, tendo em conta a minha experiência formativa, tinha de ler A escola de canto. Encontrei-na entre a pilha de livros que esperam na mesinha de cabeceira.

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OS MELLORES ESTABLECEMENTOS


É a beleza e a injustiça, a diferença de classes, a impossibilidade de ser e de existir por ser mulher, a brutalidade sem alternativa e o preço a pagar por aceder ao conhecimento e a esse mundo vedado inatingível para quem nasce e vive na pobreza. Mas de repente surge a luz emanada da abóbada pétrea. E somos eu e meu irmão a fazer uma linha melódica em terceiras e intervalos sucessivos, como um cânon que não cessa, e a partir do silêncio iniciamos a mesma canção, ao mesmo tempo e no mesmo tom. A mesma cantiga popular que cantava a mamá e que tu, entrando algo mais tarde, convertias em música angélica, e ela começava a entender.

Primeiro era esse canto inato, algo congénito, mas é obrigado entrares no seu mundo. Aprender a ler, conhecer as normas e a retórica até ser admirada. O som no teu corpo é como um instrumento. Era fugir daquele ambiente agressivo e brutal e abeirar-te na música polo arco gótico ogival, o que te mantinha com vida no internado. O som vai de um cantor a outro e de um coro a outro tal como fios num todo organizado e resulta sublime, tanto que esqueces teres sido obrigada. Nunca ouviras nada semelhante, nem tu nem eles. Mas ainda está por vir o mais cruento. E romper a máscara e as cadeias. Caminho em liberdade. Nada será como antes.


Publicado no número 685 de Sermos Galiza, o semanal de Nós Diario, sábado 22-11-2025: p. 23.

https://cesarmoranfr.wordpress.com/2025/11/29/a-escola-de-canto-de-nell-leyshon/


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