Da música e da escrita
A semana passada pediram-me umas partituras para incorporar violino, viola e violoncelo num grupo de música tradicional. Colhim papel pautado e, de uns áudios tocados com gaita midi, dei em escrever primeiro a partitura geral, em três pentagramas, e depois as individuais. Algo muito simples, sem complicações, mas algo que gosto de fazer desde que aprendera na adolescência. Daquela transcrevíamos as diferentes vozes e instrumentos de uma canção que ouvíamos num radiocassete, dando voltas à fita para diante e atrás as vezes que fosse necessário. Foram passando os anos, avançou a tecnologia, e eu sigo a escrever à mão ao meu jeito. Sei que me devo pôr a outros sistemas, como já fai meu irmão Afonso desde há tempo, pois tardaria menos e teria a simultaneidade da escrita e o som, mas por enquanto tardo menos assim.
Esta forma “amanuense” permite-me registar de imediato qualquer ideia que me vem à mente, mesmo na mesa de um café num guardanapo de papel, seja um poema, uma forma melódica ou uma sequência harmónica. De facto, mais de três temas do meu segundo disco foram escritos no trem, melodia, acordes, tempo e estrutura, num bloc pautado em pentagramas que levava sempre comigo. No âmbito literário poderia ser semelhante. Tenho contado que, já entrados na era informática, um amigo escritor me dizia que escrever no computador era o mais parecido a escrever à mão, e é relativo, pois normalmente na primeira forma desaparecem os rascunhos, as palavras, frases e estruturas primitivas que na escrita à mão ficariam riscadas, mas talvez visíveis, e penso agora em Pondal ou em Baudelaire, como também comentamos nalgures.



OS MELLORES ESTABLECEMENTOS
Todo vem ao caso porque tivem o gosto de assistir, na feira do livro, a um encontro de novas narradoras. Trás exporem individual e colectivamente os seus projetos, discursos e técnicas de escrita, entre o moderador e o público assistente foi-se gerando um interessante colóquio que ia para além do temático. Alguém perguntou: –E pronunciades em voz alta o que escrevedes para ver como vos soa? Então uma delas dixo que, no ritmo trepidante da vida em que vivemos, ela gravava qualquer cousa que lhe parecesse em qualquer lugar (no trabalho, no transporte, etc.) para mais tarde escrever, imprimir e organizar. A de idade intermédia –trinta anos–, frente ao que se poderia intuir –ou acaso não– escreve sempre à mão inicialmente, gosta de o fazer assim, e confessa que também lê em voz alta.
A mais nova das três, dezanove anos, escreve diretamente no telemóvel. Ignoro se estes comentários têm algum valor para quem leia este artigo, mas para mim têm, sem que seja fácil extrair conclusões claras. Eu anoto cousas no telemóvel, e mesmo tenho escrito algum poema, mas talvez chegasse a escrever relatos, novelas ou romances se pudesse retroceder aos dezanove anos. Seja como fôr, no que tem a ver com as letras propriamente, alguns começamos a usar o computador no início dos noventa, e com respeito à máquina de escrever foi uma maravilha.
Publicado no número 672 de Sermos Galiza, o semanal de Nós Diario, sábado 23-08-2025: p. 23.
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