César Morán: “Saudades de outono”

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Rubén, Antonio. O que o vento nos leva

As aparências enganam. Levamos duas semanas de outubro como prolongação do verão, mas no mundo da música, das salas e da noite corunhesa a entrada do outono foi devastadora. Em menos de oito dias desapareciam primeiro Rubén Rodríguez, de um infarto repentino, e depois António Ferreiro, trás uma doença entre amigos anunciada. Eu noto que se vai indo uma parte da minha linha geracional, ou ainda gente mais nova, e ficas a pensar, colhido pola saudade, sentado no peirao da baía.

O de Rubén foi um impacto imprevisível, provocando a catarse entre gente mui querida. “Fervoroso melómano e intelectual encoberto”, em palavras de Pepé Doré, tivo uma intensa trajetória como bárman profissional com dom de gentes, de discreta presença e porte elegante, e a sua silhueta foi visível n’ O Patacón, no Siglo, no Dublín, no Jazz Café que ele mesmo criou, no Garufa Club, sem contar a sua estadia por Ibiza. Comenta Pepe que foi n’ O Patacón, esse pub mítico da contracultura, onde na metade dos 80 o reencontrou depois da adolescência, e entre a gente assídua que nomea está Suso Medal, o primeiro em ir-se, e Christianne Müller “Mips” ou Gustavo Pernas, que se foram há pouquinho, e poderia nomear Daniel Val, que se foi em dezembro de 2019.

E que diremos de António? Apaixonado do jazz como saxofonista, foi o criador do Jazz Filloa a fins de 1980, com Fito Ares, Alberto Mella –único sobrevivente hoje no local– e Luis “Colchones Bonifacio”. Os músicos eram Antonio e Fito, que levaram o nome do grupo e do colectivo “Filloa”, cujo concerto de apresentação tivera lugar o 20 de junho, seis meses antes, no Kiosco Alfonso. Da cobertura informativa prévia fica a entrevista de Jesús Naya a Daniel Val e Fito Ares (La Voz de Galicia, 19-06-1980) e o artigo de Nonito Pereira (La Voz de Galicia, 15-06-1980). Os grupos do colectivo “Filloa” eram “Filloa Express” (Jazz acústico), “Muxel swing” (Funky-Jazz) e “Al-Sabah” (Jazz tradicional), e os componentes do colectivo eram Bernardo Martínez (frauta), Fito Ares (frauta), Antonio Rodríguez [Ferreiro] (saxo), Antonio Portela (baixo e contrabaixo) Antoni “Moreno” [Constenla] (bateria e percussão), Michel Canada (guitarra e violino), Manolo Varela (piano), Guilli Prieto (trompeta), Paco Ruiz (bateria), Daniel Val (baixo), Juan Durán (piano), Paulino Pereiro (frauta), Luís Pereiro (clarinete) e Humberto Morán (bateria).

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OS MELLORES ESTABLECEMENTOS


Todo isto antes de abrir o Jazz Filloa e antes de que houvesse o Festival de Jazz e a chegada à cidade dos mais grandes que trás o concerto acabavam numa jam session no Filloa: alá estiveram os irmãos Marsalis, Stan Getz, Joe Henderson ou Carles Benavent. E alá estava Antonio, com o seu olhar inconfundível detrás da barra e as suas melodias sempre por dentro. Trás aquela etapa de “Muxel swing” e “Filloa Express”, Antonio seguiu imaginando música e tocando e improvisando em modo experimental como no Quarteto de Saxos, com Bernardo Martínez, Fito Ares e Ildefonso Rodríguez, em 1989. Em 1994 gravaram para o filme A metade da vida de Raúl Veiga, motivo depois para vários concertos. Bom caminho.


Publicado en  Sermos Galiza, o semanal de Nós Diario, sábado 01-11-2025

https://cesarmoranfr.wordpress.com/2025/11/01/saudades-de-outono/


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